UM TRECHO DE "O SISTEMA TOTALITÁRIO"

(Arendt, Hannah, Publicação Dom Quixote, Lisboa, 1978, pp. 450-7)

 

No meio de um grande número de grupos anti-semistas concorrente e numa atmosfera de anti-semitismo, a propaganda nazi elaborou um método específico de tratar este assunto, método este diferente e superior a todos os outros. Não obstante, nenhum dos slogans nazis era novo - nem mesmo a astuta imagem oferecida por Hitler de uma luta de classes provocada pelo comerciante judeu que explorava os trabalhadores, enquanto outro judeu, na fábrica, os incitava a entrarem em greve. O único elemento novo era que o nazismo exigia prova de assistência não-judaica aos candidatos a membros do Partido. Além disso, o nazismo sempre foi, não obstante o programa de Feder, extremamente vago quando às verdadeiras medidas que tomaria contra os judeus quando galgasse o poder. Os nazis deram à questão judaica o lugar central na sua propaganda, no sentido de que o anti-semitismo já não era uma questão de opinião acerca de um povo diferente da maioria, nem uma questão de política nacional, mas sim a preocupação íntima de todo o indivíduo na sua existência pessoal; ninguém podia pertencer ao partido se a sua "árvore genealógica" não estivesse em ordem, e quando mais alto o posto na hierarquia nazi, mais longe no passado se vasculhava essa árvore genealógica. Do mesmo modo, embora sem tanta coerência, o bolchevismo alterou a doutrina marxista da inevitável vitória final do proletariado, organizando os seus membros como "proletários de nascença" e tornando vergonhoso e escandaloso descender de qualquer outra classe.

A propaganda nazi foi suficientemente engenhosa para transformar o anti-semitismo em princípio de autodefinição, libertando-o assim da inconstância de uma mera opinião. Usou a persuasão da demagogia de massa apenas como fase preparatória, e nunca superestimou a sua duradoura influência, fosse em discursos ou por escrito. Isso deu às massas de indivíduos atomizados, indefiníveis, instáveis, fúteis um meio de se autodefinirem e identificarem, não apenas restaurando a dignidade que antes lhes advinha da sua função na sociedade como também criando uma espécie de falsa estabilidade que fazia deles melhores candidatos à participação ativa. Através desse tipo de propaganda, o movimento podia apresentar-se como extensão artificial das reuniões de massa, e racionalizar os fúteis sentimentos de empatia e de histórica segurança que oferecia aos indivíduos isolados de uma sociedade atomizada.

Percebia-se a mesma engenhosa aplicação de slogans, criados por terceiros, e já experimentados antes, no tratamento que os nazis davam a outras questões importantes. Quando a atenção pública concentrou no nacionalismo, de um lado, e no socialismo, de outro quando se julgava que os dois eram incompatíveis e constituíam verdadeira linha divisória ideológica entre a Direita e a Esquerda, o "Partido Nacional Socialista dos Trabalhadores Alemães" (nazi) ofereceu uma síntese que supostamente levaria à unidade nacional, uma solução semântica cuja dupla marca registrada -- "alemão" e "trabalhador" -- ligava o nacionalismo da Direita ao internacionalismo da Esquerda. O próprio nome do movimento nazi esvaziava politicamente todos os outros partidos, e pretendia implicitamente incorporá-los a todos. Misturas de doutrinas políticas supostamente antagônicas (nacionalismo, social-cristã, etc.) já haviam sido experimentadas antes com sucesso; mas os nazis deram tal realidade prática à sua mistura que toda a luta parlamentar entre os sociais e os nacionalistas, entre aqueles que pretendiam ser trabalhadores em primeiro lugar e aqueles que em primeiro lugar eram alemães, parecia uma farsa destinada a ocultar motivos ulteriores e sinistros -- pois membro do movimento nazi era tudo isso e de uma só vez.

É interessante notar que, mesmo no seu começo, os nazis sempre tiveram a prudência de não usar slogans que, como democracia, república, ditadura ou monarquia, indicassem uma forma específica de governo. É como se, pelo menos neste assunto, sempre soubessem que iriam ser completamente originais. Toda a discussão a respeito da verdadeira forma do seu futuro governo podia ser rejeitada como conversa fiada a respeito de meras formalidades -- pois o Estado, segundo Hitler, era apenas um "meio" para a preservação da raça do mesmo modo que, segundo a propaganda bolchevista, o Estado é apenas um instrumento na luta de classes.

De outro modo curioso e indireto, porém, os nazis deram uma resposta propagandística à pergunta sobre qual seria o seu futuro papel, e isso fizeram-no pela maneira como usaram os "Protocolos dos Sábios do Sião" como modelo para a futura organização das massas alemãs num "império mundial". Não foram apenas os nazis que usaram os Protocolos; centenas de milhares de cópias foram vendidas na Alemanha após a Guerra de 1918, e nem sequer a sua franca adoção como manual político constituía novidade. A fraude, porém, era usada principalmente com a finalidade de denunciar os judeus e despertar a ralé para os perigos do domínio judaico. Em termos de mera propaganda, a descoberta dos nazis foi que as massas não receavam tanto que os judeus dominassem o mundo, quanto estavam interessados em saber como isso podia ser feito; que a popularidade dos Protocolos se baseava mais na admiração e na avidez de aprender, do que no ódio; e que seria boa idéia adotar algumas das suas principais fórmulas, como no caso do famoso slogan "o direito é aquilo que é bom para o povo alemão", que foi copiado das palavras dos Protocolos: "tudo o que beneficia o povo judaico é moralmente correto e sagrado".

Em muitos sentidos, os Protocolos são um documento curioso e digno de nota. À parte o seu maquiavelismo barato, a sua característica política essencial é que, de modo um tanto doido, abordam todas as questões políticas importantes da época. São por princípio antinacionais e pintam o Estado-nação como um colosso de pés de barro. Rejeitam a soberania nacional e acreditam, como Hitler disse certa vez, num império mundial à base de uma nação. Não satisfazem com a revolução de um determinado país, mas visam à conquista e ao domínio do mundo. Prometem que, a despeito da inferioridade em número, território e poder estatal, o seu povo pode conquistar o mundo através da mera organização. É certo que parte da sua força persuasiva se deve a superstições muito antigas. A noção da existência initerrupta de uma seita internacional que luta pelos mesmos objetivos revolucionários desde a antiguidade é muito velha e desempenhou certo papel na literatura política clandestina desde a Revolução Francesa, embora não tivesse ocorrido a nenhum escritor do fim do século XVIII que a "seita revolucionária", essa "nação peculiar... no meio de todas as nações civilizadas", pudesse ser o povo judeu.

O que mais atraía as massas dos Partidos era o tema de uma conspiração global, que correspondia à nova situação de forças. (Logo no início da sua carreira, Hitler prometeu que o movimento nazi iria "transcender os estreitos limites do nacionalismo moderno", e já durante a guerra houve tentativas dentro da SS para riscar a palavra "nação" do vocabulário nacional-socialista.) Só as potências mundiais pareciam ter ainda uma oportunidade de sobrevivência independente e só a política global parecia poder conseguir resultados duradouros. É bastante compreensível que essa situação assustasse as nações menores que não eram potências mundiais. Os Protocolos pareciam apontar uma solução que não dependia de condições objetivas inalteráveis, mas apenas do poder da organização.

A propaganda nazi, por outras palavras, descobriu no "judeu supranacional porque intensamente nacional" o precursor do conquistador germânico do mundo, e assegurou às massas que "as nações que primeiro conhecerem o judeu pelo que é, e forem as primeiras a combatê-lo, tornarão o seu lugar no domínio mundial. A ilusão de um domínio mundial judeu já existente constituiu a base da ilusão do futuro domínio mundial alemão Isto era o que Hitler tinha em mente quando disse que "devemos a arte de governar aos judeus", ou seja, aos Protocolos que "o Führer sabia de cor". Assim, os Protocolos apresentavam a conquista mundial como uma possibilidade prática, insinuavam que tudo era apenas uma questão de know-how inspirado ou astuto, e que o único obstáculo à vitória alemã sobre o mundo inteiro era um povo sabiamente pequeno, os judeus, que dominava sem possuir instrumentos de violência -- um adversário fácil, portanto, uma vez que se desvendasse o seu segredo e se emulasse o seu método em maior escala.

A propaganda nazi concentrou toda essa nova e promissora visão num só conceito que chamou de Volksgemeinschaft. Essa nova comunidade, tentativamente concretizada no movimento nazi na atmosfera pré-igualitária, baseava-se na absoluta igualdade de todos os alemães, igualdade não de direitos, mas de natureza, e na suprema diferença que os distinguia de todos os outros povos. Depois que os nazis galgaram o poder, este conceito perdeu gradualmente a sua importância e cedeu lugar, por um lado, a um desprezo geral pelo povo alemão (desprezo que os nazis sempre haviam nutrido, mas que não podiam demonstrar até então em público e, por outro lado, a um grande desejo de aumentarem os próprios escalões com "arianos" de outros países, idéia que não tivera muita importância na fase da propaganda nazi anterior à tomada do poder). A Volksgemeinschaft era apenas a preparação propagandística para uma sociedade racial "ariana" que, no fim, teria destruído todos os povos, inclusive os alemães.

Até certo ponto, a Volksgemeinschaft era a tentativa nazi de combater a promessa comunista de uma sociedade sem classes. A vantagem propagandística da primeira sobre a segunda parece clara, se desprezarmos todas as implicações ideológicas. Embora ambas prometessem acabar com todas as diferenças sociais e de propriedades, a sociedade sem classes tinha a conotação óbvia de que todos desceriam ao nível de um empregado de fábrica, enquanto a Volksgemeinschaft, com sua conotação de conspiração para a conquista mundial, ofereceria uma razoável esperança de que todo o povo alemão poderia vir a ser um dono de fábrica. Mas a vantagem ainda maior da Volksgemeinschaft era que a sua criação não precisava de esperar por alguma data futura e não dependia de condições objetivas: podia ser realizada imediatamente no mundo fictício do movimento.

O verdadeiro objetivo da propaganda totalitária não é a persuasão mas a organização -- a acumulação da força sem a posse dos meios de violência. Para este fim, a originalidade do conteúdo ideológico só pode ser considerada como dificuldade desnecessária. Não foi por acaso que os dois movimentos totalitários do nosso tempo, tão assustadoramente "novos", nos seus métodos de domínio e engenhosos nas suas formas de organização, nunca prepararam uma doutrina nova, nunca inventaram uma ideologia que já não fosse popular. Não são os sucessos passageiros da demagogia que conquistam as massas, mas a realidade palpável e a força de uma organização viva. Os brilhantes dons de Hitler como orador de massa não lhe conquistaram a posição que ocupava no movimento, mas levaram os seus oponentes a subestimá-lo como simples demagogo, enquanto Stalin pôde derrotar o outro orador superior da Revolução Russa. O que distingue os chefes e ditadores totalitários é a obstinada e simplória determinação com que, entre as ideologias existentes, escolhem os elementos que mais se prestam como fundamentos para a criação de um mundo inteiramente fictício. A ficção dos Protocolos era tão adequada como a ficção de uma conspiração trotkista, pois ambas continham um elemento de plausibilidade -- a influência oculta dos judeus no passado, a luta pelo poder entre Trotsky e Stalin -- que nem mesmo o mundo fictício do tolitarismo pode de todo dispensar. A sua arte consiste em usar e, ao mesmo tempo, transcender o que há de real, de experiência demonstrável na ficção escolhida, generalizando tudo num artifício que passa a estar definitivamente fora de qualquer controle possível por parte do indivíduo. Com tais generalizações, a propaganda totalitária cria um mundo fictício capaz de competir com o mundo real, cuja principal desvantagem é não ser lógico, coerente e organizado. A coerência da ficção e o rigor organizacional permitem que a generalização venha a sobreviver ao desmascaramento de certas mentiras mais específicas -- o poder dos judeus após o seu massacre sem defesa, a sinistra conspiração global dos trotkistas após a sua liquidação na União Soviética e o assassinato do próprio Trotsky.