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Sinal vermelho. Tem criança no farol. Sinal amarelo. Que problemão. Sinal verde. Ainda bem que passou.
Quando se fala no problema das crianças, o brasileiro não costuma ser nem um pouco adulto. Todos concordam rapidamente que é uma situação lamentável. E aceleramos o carro mais rapidamente, deixando para trás o "assunto" pedindo moedas no farol.
Há muito mais de duas décadas se diz que "a solução do problema do menor abandonado é trabalho para mais de duas décadas". Mas até agora nada. Quando vamos começar a contar o tempo? Amanhã? Logo depois da refeição, Fernando Henrique? Depois das Olimpíadas de 2004 no Rio de Janeiro? No dia de São Nunca, à tarde?
Em uma pesquisa sobre a auto-imagem do brasileiro, só 2% responderam "o abandono do menor" à pergunta "quais as razões para Ter vergonha do Brasil?". Sim, eu sei, 19% responderam que o maior motivo de vergonha é a "fome, miséria e pobreza". Sim, mas fome, miséria e pobreza de quem, cara-pálida? Reconhecer a miséria em pesquisa é uma cômoda prova de consciência. Cruzar com ela no farol é que revela nossa verdadeira índole ("não, meu Deus, mais um moleque pedindo esmola!").
Não existe possibilidade de o Brasil ser um país digno enquanto houver um brasileirinho se ferrando na rua. A consciência dessa impossibilidade tem que virar obsessão nacional. A gente tem que dizer "bom-dia" e já completar "é proibido crianças vivendo nas ruas". Dizer "boa-tarde" e já engatar "é inconcebível Ter crianças amontoadas no farol". Dizer "boa-noite" e já admitir "é desumano crianças dormindo no papelão".
Esse problema pode ser analisado independente da miséria do país? Não, Pedro Bó, não pode. Mas chega dessa paralisia infantil. Tá na hora do curto prazo, da urgência, do "não deixe para amanhã a criança que pode morrer ainda hoje". Vamos esquecer os viadutos. Tirar hidroelétricas da cabeça. Não sejamos loucos em pensar em usinas atômicas. Temos que optar por prioridades mais dignas, porque criança não tem opção. Se nós, marmanjões, não fizermos por ela, quem vai fazer? O Espírito Santo? Os duendes? O Zagalo? Ou, quem sabe, os novos cavaleiros do Zodíaco?
P.S.: Idiotas podem reagir perguntando o que faço de prático. O próprio texto, claro, já é uma resposta (só que idiotas não costumam enxergar importância em textos).
(Marcelo Pires)
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